terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Conversa de botas batidas


Caminhou pela rua de barro vermelho como fazia todos os dias, com passos lentos enquanto mancava da perna esquerda.
- Bom dia Zé.
 Sorriu em resposta enquanto ajeitava as barras de ferro groso nos ombros. Tivera um longo dia de trabalho e sorriu novamente, para si mesmo.
- 'Dia, Zé.
- 'Dia.
 Sorriu.
 Adentrou uma rua estreita e chegou a frente de um portão enferrujado, abri-o e logo pode ver o pequeno correndo em seu encontro, logo atrás vieram mais dois. O pequeno abraçou suas pernas, deixou os ferros no chão e o pegou em seu colo.
-Pai, conseguiu, conseguiu?
 Gritou o maior, fazendo aparecer uma mulher na janela, olhou pra ela e sorriu. Era pouco o dinheiro, mas esperava que o jantar fosse diferente de agora em diante.

O Velho e o Moço


 Sentei-me em um banco e enquanto observava as pessoas andando apressadas demais para uma tarde fria de inverno, acendi um cigarro. Então um suspiro pesaroso a denunciou, sentada ao meu lado, com os olhos escuros e vazios, fixos no nada. Era velha, as madeixas brancas que lhe cainham no rosto de rugas fundas e expressão cansada lhe denunciou o tempo.
 - Dia ruim minha querida – Disse, deixando-me confusa sobre suas palavras, sem saber ao certo se fora para mim ou um desabafa solitário. Olhei-a, e sem se quer virar-se a mim, continuou:
 - Eles assustam, não é?
 - Muito.
 - Não... a mim não. – Falou-me, com um sorriso no canto dos lábios.
 - Como?
 - Existem coisas mais assustadoras minha jovem.
 - Diga-me, então?
 - Minha vida. Quer que eu lhe conte a minha história?
 - Conte-me.
 - Já tentou ter o controle de coisas incontroláveis? Quando se é impossível ser senhora de si mesmo, e você insiste em deixar a vida como ta e seguir mesmo assim.? Não há motivação. E em ti, existe motivação?
 - Sim, minha família. Tem família, senhora?
 - Não, todos se foram.
 - Vive sozinha?
 - Talvez, porque quando não há quem espere sua volta para casa, no final das contas, não existe vida se não tiver para quem a contar.
 - E as lembranças?
 - Oh, tenho muitas, mas não há quem as queira ouvir. A casa é solitária, e mesmo aos domingos, sento-me no sofá e observo a porta fechada, e pelo vidro da janela, vejo o dia escurecer. Os anos passam e é sempre o mesmo. E eu me culpo, oh como em culpo, por não ter conseguido evitar minha própria idade.
 - Mas isso é inevitável, não é? O tempo é inevitável.
 - E a solidão também. O vazio me preenche há anos, e os sorrisos foram me escapando dos lábios e saindo pelos olhos, hoje sou seca, nada mais me escapa, nada mais me abala nem me preenche. Consegui ver o que ficou?
 - Tristeza?
 - O nada. Apenas isso, um grande e surpreendente nada. Eu tentei agarrar o universo com os braços, minha jovem, e hoje mal consigo erguer os olhos para contemplá-lo. Você entende o que eu quero dizer?
 - O universo é grande.
 - E a vida cabe em uma mala. Bagagem grande que é levada ao ombro e te deixa cansada no final da viagem. Uns morrem e outros se perdem, e ainda me pergunto, qual a diferença de ambos quando nem eu mesma sei em qual deles parei.
 - Presumo estar indo pelo mesmo caminho.
 - Então troque o caminho, não vale à pena trocar a comodidade pela solidão. Vire a direita, admire outro caminho, e esqueça. – E sem se despedir ou virar-se a mim, levantou-a e foi embora. Fiz o mesmo, levantei-me e segui para longe, e por um atalho, olhando para o céu estrelado, a esqueci.  
                 

Sobre não saber o que dizer.


 Meus dedos se perdem na folha em branco e eu não consigo encontrar um ponto de fuga, e porque o silêncio me deixa confusa e tenho essa mania de acreditar no que eu mesma imagino. Mas estou de malas feitas outra vez, pronta para fugir pro acalento da minha própria solidão, só preciso chegar rápido, só quero esquecer o motivo que fará doer. E deixo gravada minha futura dor, nas palavras que preenche as linhas, mesmo que seja incompreensível (...). Estou me colocando no papel, e fico surpresa em saber que depois de meses de bloqueio, eu ainda sou o motivo da escrita. Por que estou me dissertando o tempo todo? Por que as linhas brancas estão engolindo minhas palavras e cuspindo-as de volta? Um amontoado de sentimentos repetidos, virando pó dentro de mim. O vento está soprando nos meus ouvidos, consegue me ouvir? Já se passam da 1 hora, eu continuo aqui.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

She will be loved



  Nos lábios dela sempre havia um sorriso, daqueles espontâneos que contagiam até o mais desprezível ser. Uma daquelas garotas que não se importa com o mal em volta. Ela transbordava alegria, exalava e atingia quem estivesse por perto. Contagiante? Bom, depende de quem esta perto. Talvez fosse falsa, talvez a alegria fosse de momento. Mas quem iria querer saber? Quem iria se importar com tal detalhe? Talvez o que mais valia no momento fosse a quantidade de pessoas a sua volta. Ela sabia o que precisava pra manter o sucesso e ela tinha, mas o sorriso inicial já não era o mesmo no final da noite. (...)  Ela odiava chorar. Fazia careta, borrava a maquiagem e mostrava toda sua fraqueza. Odiava a si mesma e socava o travesseiro. De quem era a culpa? Ela não queria pensar, nem descobrir no final da madrugada que era dela própria. Mas no fundo sabia o que realmente precisava, havia uma palavra que soava, no fundo de si própria, vazio. O que fazer com ele? Como se livrar dele? São perguntas feitas ao entardecer. (...) O sol se punha, laranja na metade cinza, deitada com os olhos na janela, seus pensamentos rondavam. Ela transbordava palavras, saiam pelos poros, fugiam pelo ar, juntavam a cima da cabeça, e ela tentava transformar em algo concreto. Tentava ler nas entrelinhas, e viravam borrões. E as perguntas se misturavam com a chuva na janela. Nada seria real naquele dia, mas era o que havia.


( - Com Sabrina Marx)


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A hora do trem passar II



 O chão estava molhado, e das telhas pingavam o que sobrara da chuva. O sol fraco das 18h desaparecia por trás das montanhas, e os trovões ainda ralhavam pelo céu metade cinza, metade azul e rosa. A brisa batia e levantava cheiro, cheiro de chuva. Andava em passos rápidos  fazendo os fones caírem dos ouvidos, freneticamente. Tentava alcança a 15 de Novembro, estava atrasada, muito atrasada. O ar lhe faltava, e mal conseguia respirar, avistou a estação de trem, ele à esperava. Sorriu, como sempre fazia quando o via, e seu sorriso se alargou quando ele sorriu também. Adorava aquele sorriso, era de mostrar todos os dentes, fazia careta e fechava os olhos. Seu sorriso preferido. Também gostava dos olhos, claros e expressivos. Ele a abraçou, ficaram assim, um sentindo a respiração do outro, até a chegada do próximo trem. 

Mais do mesmo II


 Talvez eu desconheça a maturidade dos anos, mas queria, com todas as forças, ser senhora de mim mesma. Tem haver com a solidão que me espera em uma casa vazia ou com o a insegurança da mudança inevitável. O rumo das coisas são incontroláveis à meu poder e isso enlouquece, eu não tenho a direção nem a ordem, e não sei o que será do amanhã, quando nem o hoje mais me pertence.  O futuro longínquo me entristece e tenho medo, medo de que as coisas sejam como eu sinto. Posso esperar o contrario?  [...] Dizem que é preciso viver só o presente, mas isso é inútil pra mim, quando minha cabeça não pára para viver, apenas vê através de tudo e me frustro antes de ter a chance de realmente me frustrar. É que isso pra mim é demais. Eu estou perdendo muito, como se cada minuto respirado, estivesse me sufocando. Eu não vivo, e me pergunto qual é a graça do existir. Eu quero agarrar o mundo e devorar cada pedaço. É pedir demais? [...]
 Anseio pelas mínimas partes, para que tudo seja meu antes do tempo terminar. A vida é tão curta criança, porque passar tão pouco tempo parado, olhando pela janela? Acho que é isso que faz as pessoas caírem no mundo e se perderem pelo caminho, sem querer voltar. E eu fugiria, agora, nesse exato momento. Iria para qualquer lugar que me dessem afago e logo me iria embora. Então, qual o sentido disso tudo?  

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Filhos do Cancêr



 Adorava aquela bagunça. E que bagunça. Pulavam e gritavam, como se o mundo fosse explodir. E eu não os impedia, observava sorrindo, aqueles dois sorrisos nunca os deixavam. Um sorriso acompanhava os olhos, olhos estes que, únicos, eram os mais bonitos que já vi. Eles iluminavam, e não pela sua cor, que eu insistia em teimar; era azul! E ele discordava rindo, ambos sabíamos, poderia ser a cor que quiséssemos. Os queria pra mim, sim, quem não os iria querer? Mas preferia nele, azul, verde, isso não importava. O outro sorriso acompanhava o jeito, jeito este que me fazia a apertar. Vivia no seu mundo, e o compartilhava, falando pelos quatro ventos, tão tagarela quanto eu, e nos perdíamos em cada hora de conversa, tentando achar tempo para tanto o que falar. Ambos tinham a doçura que tiravam o amargo da minha vida. Açucarados com carinho e inocência em mel, sonhavam e me levavam com eles. Dançavam pelo tapete da sala. Ele apertava minhas bochechas e as deixava vermelha e eu o deixava vermelho, pela graça de vê-lo sorrir sem graça e ser ameaçada de cócegas. Ela eu tentava animar, a rodava, como se os problemas fossem ir embora com a música, não parava de rodá-la, enquanto não a via sorrir. Eles me faziam sorrir, e não importa se destruíssem o tapete da sala ou o quadro da sala de jantar. Eles eram meus.